sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

[Resenha #25] Legend, de Marie Lu

Todos sabemos que a quantidade absurda de distopias que inundaram as livrarias nos últimos tempos obtiveram duas consequências: saturação e perda de qualidade. Cada um dos milhares de autores, mesmo que negue, deseja conquistar a mesma notoriedade daquela que desencadeou esse processo: Suzanne Collins, autora de Jogos Vorazes. Quem diria que uma autora de feição tão suave e tímida seria, ao meu ver um dos nomes mais fortes para conquistar tal posto, ou até mesmo, ir além dele. A obra da brilhante Marie Lu, não conquista o público pela sina de algum casal desafortunado, mas sim pelo seu genuíno caráter humano. Conheçam "Legend".  
Ambientado na cidade de Los Angeles em 2130 D.C., na atual República da América, conta a história de um rapaz – o criminoso mais procurado do país – e de uma jovem – a pupila mais promissora da República –, cujos caminhos se cruzam quando o irmão desta é assassinado e a ela cabe a tarefa de capturar o responsável pelo crime. No entanto, a verdade que os dois desvendarão se tornará uma lenda. O que outrora foi o oeste dos Estados Unidos é agora o lar da República, uma nação eternamente em guerra com seus vizinhos. Nascida em uma família de elite em um dos mais ricos setores da República, June é uma garota prodígio de 15 anos que está sendo preparada para o sucesso nos mais altos círculos militares da República. Nascido nas favelas, Day, de 15 anos, é o criminoso mais procurado do país; porém, suas motivações parecem não ser tão mal-intencionadas assim. De mundos diferentes, June e Day não têm motivos para se cruzarem – até o dia em que o irmão de June, Metias, é assassinado e Day se torna o principal suspeito. Preso num grande jogo de gato e rato, Day luta pela sobrevivência da sua família, enquanto June procura vingar a morte de Metias. Mas, em uma chocante reviravolta, os dois descobrem a verdade sobre o que realmente os uniu e sobre até onde seu país irá para manter seus segredos.


Legend é fantástico, é um livro que te encanta logo nas primeiras páginas. É gradativo, devo dizer; quando você pensa que sua afeição pelo livro chegou ao ápice, novos acontecimentos e surpresas chocantes o fazem reconsiderar a ideia. Marie Lu, mesmo que ainda esteja um pouco longe da maestria de Suzanne Collins nesse quesito, conseguiu deixar ganchos incríveis na maioria de seus capítulos, obrigando seus leitores prorrogarem a leitura por "apenas mais um capítulo". Acompanhar essa sensacional caçada de cão e gato de June e Day foi divertidíssima. Gosto de personagens inteligentes; nada melhor do que uma corrida de intelectos, daquelas que você anseia ver quem dará o primeiro deslize e deixará que o outro se consagre vencedor.

Todos os personagens detém um carisma imenso. Marie Lu criou personagens que possuem voz própria; Legend é um livro que te faz vibrar e torcer pelos protagonistas e detestar com todas as forças os antagonistas. Day não demonstra aquela falta de emoções robotizada presente nos protagonistas que possuem técnicas espetaculares, pelo contrário, é uma personagem tremendamente humanizado - mostra seus medos, destacando que não passa de um simples adolescente que teve de aprender a sobreviver nas ruas pobres da República.

Quem já conferiu outras resenhas aqui do Apanhador já sabe que eu adoro personagens femininas fortes emocionalmente, principalmente as que sabem usar a inteligência ao seu favor - June cumpriu todas essas exigências de minha parte.Convicta de seus valores, ainda que muito ingênua em relação aos problemas estruturais da República. Além de genial, é também uma soldado perfeita; ela nunca achou que suas emoções poderiam, algum dia, passar a perna em sua razão.

Há romance,mas sem frescuras. Percebemos que a atração física entre os personagens demora bastante para se transformar em algo mais. Entretanto, tudo é dado com muita naturalidade e sem maniqueísmos - as ações de ambos não podem conferir a eles adjetivos absolutos como "bom" e "mau".

A narrativa intercalada me fez lembrar o incrível "Corrida de Escorpião". Achei interessante a troca sútil de fontes que demarcam os capítulos de Day e June, como se fosse uma forma de criar uma identidade própria para cada uma das duas partes.  Além disso, os capítulos curtos também foram uma jogada bem inteligente de Marie Lu. eles conferiram uma agilidade incrível ao enredo. Mesmo que a história fosse ditada de pontos de vistas distintos, não houve repetição desnecessária ou uma segunda descrição alternativa dos fatos que já haviam ocorrido no capítulo de outra personagem.

A narrativa de autora é tão substancial que é bem possível imaginar um cenário decadente e futurista. As imagens descritas das ruas imundas e perigosas da periferia unidas às do luxo e conforto dos setores mais nobres formam um contraste poderoso. O cenário me fez lembrar muito do apresentado no remake de "O vingador do futuro", filme já analisado aqui n'O Apanhador. As descrições bem elaboradas, destacadas pelo uso inteligente de adjetivos bem medidos, conferiram a "Legend", ao meu ver, uma facilidade imaginativa incrível.Acho fascinante imaginar o mundo político virado de cabeça para baixo, explorando novos acordos de fronteiras e confrontos militares; aqui em "Legend", Marie Lu criou uma espécie segunda Guerra de Secessão norte-americana, colocando Leste contra Oeste - diferente da época de Lincoln, onde Norte e Sul disputavam de forma ferrenha. Legend é tão cinematográfico que pude imaginar todos os personagens sendo interpretados em um longa metragem; além de, logicamente  uma boa trilha sonora. Minhas (habituais) escolhas? Você confere logo abaixo.

June Iparis (Lyndsy Fosenca) e Daniel "Day" Altan Wing (James Gaisford)
Tess (Abigail Breslin), Thomas (Joshua Bowman) e Comandante Jameson (Sigourney Weaver)
Chian (Robert Patrick), Kaede (Phoebe Tonkin) e Methias Iparis (Scott Speedman)

A edição de Legend é um pouco tímida. A capa não atrai tanto os leitores, apesar de seu conteúdo ser altamente recomendável a todos que buscam uma distopia de qualidade. As páginas são amarelas, com uma diagramação estilizada. Cada pagina do livro apresenta destalhes nas bordas. Não há muitos erros gramaticais, o que é um alívio. Considerando no geral o selo Prumo da Editora Rocco nos presenteia com uma boa edição.

Apenas... leiam Legend! Acredito ter sido a melhor distopia que li no ano de 2012; e devo dizer que foram muitas! Com um enredo cinematográfico, Marie Lu atinge o cerne do que chamamos de uma distopia juvenil de qualidade. A autora conquista tanto por sua escrita, quanto por suas história magnífica. É um nome que merece estar em destaque ao lado de Suzanne Collins ao considerarmos o surto distópico atual. É uma obra, como tantas do gênero, que nos fazem refletir os milhares de futuros que a humanidade está construindo para si; para Marie Lu, o mundo se afogará em uma poça lodosa de egoísmo e crueldade.  


 Título: Legend      AutorMarie Lu  

EditoraPrumo

Notas: |Enredo: 09/10 | Edição: 07/10Entusiasmo:10/10| 



8 comentários:

  1. Já vi o livro em alguns sites, mas nunca me interessei a ler ou conhecer mais sobre o livro, até hoje!
    Gostei muitos dos seus comentários e sem dúvido vou incluir em minhas leituras. Ótima resenha, parabéns!
    Grande Beijos!


    Camila - Meu Livro Cor-de-Rosa
    http://meulivrocorderosa.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico feliz que tenha feito você ter uma segunda opinião sobre o livro ;]
      Espero que possa lê-lo em breve, pois é uma ótima leitura! Quando conseguir, não esqueça de voltar aqui para expor o seu ponto de vista. =]

      Obrigado pelo comentário!
      Beijos,
      Lucas

      Excluir
  2. Oi Lucas,
    já vi Legend, mas confesso que não havia me chamado a atenção, já que é um livro fino, e com uma capa não um tanto chamativa. Porém li a sinopse e achei super interessante. Concordo com seu ponto de vista ao afirmar que surgiram várias distopias que quiseram o lugar de Jogos Vorazes. Poucos conseguem. Aconteceu o mesmo com 50 tons, Harry Potter e Crepúsculo. Deixo aqui uma dica de uma distopia que acho bem diferente e que de certa forma faz uma crítica a sociedade atual: a série Feios, de Scott Westerfeld. Vale a pena!

    Abraço,
    Lucas
    ondeviveafantasia.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, realmente à primeira vista a edição deixa muito a desejar e não atrai os leitores. Eu apenas compre o livro pois eu já via comentários dele antes da Prumo editar ele aqui no Brasil. Parece que o pessoal gostou bastante nos EUA, então quis conferir. Ainda que aparente pouco conteúdo, a autora construiu uma história incrível em mais ou menos 250 páginas, vale muuito a pena conferir mesmo!

      Já quanto a Feios: Eu li o primeiro da série, achei "legal", mas ainda assim não caiu nas minhas graças rss Estou adiando ler "Perfeitos" já há um bom tempo, vamos ver se arranjo um espaço em 2013 ;]

      Obrigado pelo comentário!
      Abraços,
      Lucas

      Excluir
  3. Acho que já teria lido o livro se não fosse o atraso absurdo da submarino...Mas enfim, parece ser MUITO bom mesmo. Quero muito lê-lo. Adorei a resenha! Muito bem feita, como sempre. Seus textos são ótimos!

    blog-exlibris.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  4. Eu não curto muito a capa de Legend, mas também não curtia as de Jogos Vorazes! :P Eu não tava interessado nesse livro, até ler uma resenha muito positiva de uma vlogger gringa. Foi bom poder ler sua resenha positiva também, porque comprei o livro essa semana! Espero gostar também!

    Ah, Radioactive já é tão A Hospedeira (toca no clipe e, provavelmente, está na trilha sonora)! haha

    Abraços, Lucas!
    Gabriel.
    www.musicatvetc.com

    ResponderExcluir
  5. Eu amo distopias e estou sempre a procura de novas pra ler. Encontrei Legend e li agora em Janeiro e, não teve outra, foi parar na lista de favoritos. Muito bom mesmo... Gostei da atmosfera que passa... Ah, pfvr, distopias são VIDA *Q*
    Estou louquinha pra ler Prodigy e aguardando ansiosamente o filme porque se Legend não merece um filme...

    Ah, e ótima resenha! ;))

    ResponderExcluir